Redação:

Viva sempre dona Juscelina do Quilombo!

Estamos sob o choque da notícia da partida tão súbita de Dona Juscelina, a matriarca da comunidade quilombola de Muricilândia, pequena cidade próxima a Araguaína, em cuja casa frequentemente costumamos parar na ida ou na volta de atividades nas comunidades locais, sempre desfrutando do sorriso alegre, da firme determinação e da nonagenária sabedoria desta lutadora indomável.


Queremos neste momento dirigir à grande família quilombola nosso profundo pesar e ao mesmo tempo nossas palavras de gratidão, consolo e esperança para esta que se tornou também de alguma forma a nossa matriarca, pela graça de sua imensa capacidade de acolhida e fraternura.


Dona Juscelina nasceu em 24/10/1930 em Nova Iorque, no Maranhão. Era neta de uma cativa. Benzedeira, devota e romeira do Padre Cícero, do Divino Espírito Santo, era lavradora, parteira, quebradeira de coco. Ela presidia o Conselho de Griots da comunidade, cuja missão é de repassar os saberes e transmitir a história para as novas gerações, compartilhando os conhecimentos dos ancestrais e confortando a comunidade na sua organização, assumindo com orgulho sua histórica resistência.


Não encontramos melhor maneira para nos expressar que fazermos nossas as palavras que frei Marcos, frade dominicano, escreveu exatamente um ano atrás ao parabenizar a indicação certeira de dona Juscelina para o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal do Tocantins (UFT), título oficializado em fevereiro passado.
“Sou frei Marcos Antonio Belei, pároco da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, responsável pela Igreja Católica nos municípios de Aragominas, Muricilândia e Santa Fé do Araguaia desde 2012.


Acompanhando as atividades missionárias da comunidade de Muricilândia, venho aqui reconhecer a importância da dona Lucelina Gomes dos Santos (mais conhecida pela comunidade como Dona Juscelina), na vida das pessoas, como liderança não só do movimento de consciência negra combatendo a escravidão e os preconceitos contra os afro-descendentes que ainda imperam em nosso país, mas também como portadora de uma mística e espiritualidade que fortalecem e dignificam a raça negra e os mais pobres da sociedade.


Quero destacar três pontos referentes à ligação de Dona Juscelina com a nossa comunidade, dentre muitos outros.
Dona Juscelina organiza todos os anos uma noite de espiritualidade, conhecida com “Penitência”, em honra ao Divino Espírito Santo, onde se reza e canta as tradições espirituais: olhar para o passado; onde se coloca a luta do povo nos nossos dias: olhar para o presente; e onde se renova a esperança de dias melhores: olhar para o futuro.


Nestas celebrações, a fala e postura de Dona Juscelina, já frágil pelo cansaço da idade, adquire uma força extraordinária, pois arraigada nas tradições autênticas do povo, na luta incansável por melhores condições de vida para si e para as pessoas empobrecidas, na certeza de que a espiritualidade – fonte de doação e partilha – é superior ao materialismo egoísta.


Podemos dizer de Dona Juscelina aquilo que o povo dizia sobre Jesus, o qual, sem nenhuma formação nas academias religiosas da época, ensinava nas sinagogas: “Todos se maravilhavam com seu ensinamento, porque ensinava como quem tem autoridade, e não como os doutores da lei” (Mc 1,22). A verdadeira sabedoria e o real ensinamento brotam do compromisso com a vida dos mais pobres e na autenticidade de vida.


Participamos também como Paróquia, todos os anos, das comemorações de 13 de maio, onde Dona Juscelina há tempo convoca um número considerável de pessoas para refletir sobre a escravidão e festejar com danças, cânticos e refeições a conquista e o dom da liberdade. Na oportunidade somos convidados como igreja a propor um momento de louvor e ação de graças, junto com representantes das outras igrejas presentes.


Podemos testemunhar nestes eventos o grande poder convocatório e a liderança de Dona Juscelina, porque na sua pessoa encontra-se aquilo que é essencial na vida das pessoas e dos povos: liberdade, alegria e felicidade. Suas falas são sempre reverenciadas com silêncio e atenção.


Na vida interna da igreja católica, Dona Juscelina é presença constante e sempre pronta para intervir nos assuntos e problemáticas do dia-a-dia ora com opiniões elogiosas ora com críticas construtivas. Mas sempre tem uma palavra a dizer, e palavras sempre muito respeitadas porque comprometidas com a melhoria da vida da comunidade.
No dia-a-dia, o título que se dá à dona Juscelina é o de matriarca. E acho isso muito justo. Pois vivendo em tempos de fake news, falsidade e hipocrisia escancaradas até em forma de governos, uma palavra autêntica, comprometida com os mais frágeis, despojada, amorosa, dignificante do próximo, bem humorada e cativante, deve, sim, ser valorizada e passada para as gerações futuras como aquilo que nós temos de melhor neste início de milênio: isso não pode ser perdido. Axé, awere, aleluia!!!”

Viva dona Juscelina do Quilombo! Os ancestrais estão hoje lhe recebendo ao som dos tambores da liberdade e da esperança! Viva a livre e alegre lutadora, matriarca da comunidade dona Juscelina e nossa matriarca! Viva a comunidade quilombola! Estes são os desejos da Comissão Pastoral da Terra Araguaia-Tocantins, selando compromisso de seguirmos fiéis nesta histórica caminhada.


CPT Araguaia-Tocantins 

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